Gabriel Botta: nos confins de visualidade
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Pensemos nos fenômenos que se impõe violentamente, mas que são da ordem das imagens transitórias, difíceis de apreender. Talvez você, leitor, se lembre das zonas de arrebentação – o choque das ondas, os fogos de artifícios, as grandes ventanias, os incêndios, explosões, erupções. Eles nos inundam de excitação visual, mas escapam rapidamente. Num piscar de olhos, já não são a mesma coisa, ou não estão mais aqui.
Creio que essa primeira exposição de Gabriel Botta na Galeria Kogan Amaro nos fale destes gestos efêmeros prestes a se refazer ou desconstruir. Suas pinturas são capturas temporárias, limites de visualidade. Diante delas, nada permanece, tudo se esvai. Confim, significante que dá título à mostra, quer dizer limite, fronteira, mas também o local mais afastado, desconhecido. Nós, espectadores, contemplamos esses trabalhos como quem medita na margem de um rio corrente e observa a água transformar tudo o que toca.
Poderíamos reconhecer o atributo da impermanência como algo compartilhado por uma geração que cresceu imersa na internet e no mundo digital, cujas imagens são sempre provisórias e, ironicamente, imperativas. Mas além disso, proponho reconhecer a pintura fronteiriça de Botta a partir da concepção de paisagens internas e externas. Zoom in. Zoom out.
No plano externo, tais obras podem ser vistas como fragmentos de paisagens, relevos acidentados, oceanos profundos, retalhos do espaço sideral. São como a tentativa de mapear um território desconhecido que amedronta. No plano interno, em via contrária, elas configuram cartografias de nossos afetos, intensidades, emoções. Não seria possível ignorar o caráter expressivo desses gestos pictóricos: eles são, antes de tudo, indícios de um corpo que não cessa de se imprimir na tela.
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Giorgio Agamben diz que, no gesto, “cada corpo, uma vez liberado de sua relação voluntária com um fim, pode, pela primeira vez, explorar, sondar, e mostrar todas as possibilidades de que é capaz”. Nessa direção, a pintura de Botta pode ser lida como exercício das vidas possíveis, exercício do gesto infinito. Ela nos fala da aparência frágil das coisas no mundo, mas também de sua pulsão por tomar as superfícies.
As obras presentes nesses confins, portanto, não se encaixam perfeitamente nos desenhos do real, não são espelho do mundo. Ao contrário, nublam nossa visão, sussurram segredos, esboçam enigmas. Com elas, persiste a sensação de que não é possível ver, mas apenas entrever, espiar, vislumbrar. Dessa experiência limítrofe, lembro-me do poema de Ismar Tirelli Neto que aqui compartilho: “Fui aos confins / Tomo este canto aos confins / Que lhe disseram os confins? / Agora estou de volta”. Aqui constatamos que habitar as fronteiras é também um modo de alargar as fronteiras. Talvez assim seja possível abraçar o estranho, o desconhecido que nos habita.
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Pollyana Quintella
Gabriel Botta: At the Limits of Visuality
Let us consider phenomena that impose themselves violently yet belong to the realm of transient images, difficult to grasp. Perhaps you, reader, recall the breaking zones of waves—the clash of the tides, fireworks, great gusts of wind, fires, explosions, eruptions. They flood us with visual excitement but escape quickly. In the blink of an eye, they are no longer the same or have vanished altogether.
I believe this first exhibition by Gabriel Botta at Galeria Kogan Amaro speaks to these ephemeral gestures, always on the verge of being remade or undone. His paintings are temporary captures, boundaries of visuality. Before them, nothing remains—everything dissipates. Confim, the significant word that gives the exhibition its title, means boundary, frontier, but also the most distant, unknown place. We, as spectators, contemplate these works like those who meditate on the banks of a flowing river, watching the water transform everything it touches.
We might recognize impermanence as a characteristic shared by a generation that grew up immersed in the internet and the digital world, where images are always provisional and, ironically, imperative. But beyond that, I propose understanding Botta’s borderland painting through the concept of internal and external landscapes. Zoom in. Zoom out.
On the external plane, these works can be seen as fragments of landscapes—rugged terrains, deep oceans, scraps of outer space. They resemble attempts to map an unknown, intimidating territory. On the internal plane, conversely, they shape cartographies of our emotions, intensities, and affections. It would be impossible to ignore the expressive nature of these pictorial gestures: they are, above all, traces of a body that never ceases to imprint itself upon the canvas.
Giorgio Agamben says that in a gesture, “each body, once freed from its voluntary relation to an end, can, for the first time, explore, probe, and display all the possibilities of which it is capable.” In this sense, Botta’s painting can be read as an exercise in possible lives, an exercise in infinite gesture. It speaks to us of the fragile appearance of things in the world but also of their drive to take hold of surfaces.
The works found in these confins—these farthest reaches—do not fit neatly into the drawings of reality; they are not mirrors of the world. On the contrary, they blur our vision, whisper secrets, outline enigmas. With them, the sensation persists that it is not possible to see, only to glimpse, to peek, to envision. From this liminal experience, I am reminded of a poem by Ismar Tirelli Neto, which I share here: "I went to the farthest reaches / I take this song to the farthest reaches / What did they tell you, the farthest reaches? / Now I am back." Here, we realize that inhabiting borders is also a way of expanding them. Perhaps this is how we can embrace the strange, the unknown that resides within us.
Pollyana Quintella