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Gabriel Botta: nos confins da visualidade

2021

por Pollyana Quintella                                                                                       



Pensemos nos fenômenos que se impõem violentamente, mas que são da ordem das imagens transitórias, difíceis de apreender. Talvez você, leitor, se lembre das zonas de arrebentação -- o choque das ondas, os fogos de artifícios, as grandes ventanias, os incêndios, explosões, erupções. Eles nos inundam de excitação visual, mas escapam rapidamente. Num piscar de olhos, já não são a mesma coisa, ou não estão mais aqui.

Creio que essa primeira exposição de Gabriel Botta na galeria Kogan Amaro nos fale desses gestos efêmeros prestes a se refazer ou desconstituir. Suas pinturas são capturas temporárias, limites de visualidade. Diante delas, nada permanece, tudo se esvai. Confim, significante que dá título à mostra, quer dizer limite, fronteira, mas também o local mais afastado, desconhecido. Nós, espectadores, contemplamos esses trabalhos como quem medita na margem de um rio corrente e observa a água transformar tudo o que toca.


Poderíamos reconhecer o atributo da impermanência como algo compartilhado por uma geração que cresceu imersa na internet e no mundo digital, cujas imagens são sempre provisórias e, ironicamente, imperativas. Mas além disso, proponho reconhecer a pintura fronteiriça de Botta a partir da concepção de paisagens internas e externas. Zoom in. Zoom out.

No plano externo, tais obras podem ser vistas como fragmentos de paisagens, relevos acidentados, oceanos profundos, retalhos do espaço sideral. São como a tentativa de mapear um território desconhecido que nos fascina e amedronta. No plano interno, em via contrária, elas configuram cartografias de nossos afetos, intensidades, emoções. Não seria possível ignorar o caráter expressivo desses gestos pictóricos: eles são, antes de tudo, indícios de um corpo que se desloca incessantemente, um corpo que não cessa de se imprimir na tela.

Giorgio Agamben diz que, no gesto, “cada corpo, uma vez liberado de sua relação voluntária com um fim, pode, pela primeira vez, explorar, sondar e mostrar todas as possibilidades de que é capaz”. Nessa direção, a pintura de Botta pode ser lida como exercício das vidas possíveis, exercício do gesto infinito. Ela nos fala da aparência frágil das coisas no mundo, mas também de sua pulsão por tomar as superfícies.

As obras presentes nesses confins, portanto, não se encaixam perfeitamente nos desenhos do real, não são espelho do mundo. Ao contrário, nublam nossa visão, sussurram segredos, esboçam enigmas. Com elas, persiste a sensação de que não é possível ver, mas apenas entrever, espiar, vislumbrar. Dessa experiência limítrofe, lembro-me do poema de Ismar Tirelli Neto, que aqui compartilho: “Fui aos confins / Tomo este canto aos confins / Agora estou de volta / Agora falo pelos confins / Que lhe disseram os confins? / Agora estou de volta”. Aqui constatamos que habitar as bordas é também um modo de alargar as fronteiras. Talvez assim seja possível abraçar o estranho, o desconhecido que nos habita.






naturezas distintas

2016

(parte da exposição no EDP 2016 - Instituto Tomie Ohtake)

por Rodrigo martins




Uma esmerilhadeira usada como pincel. O trabalho de Gabriel Bottta resulta da tensão entre a materialidade e a construcao de uma narrativa, trazendo a tona o embate corporal que os materiais industriais necessitam com imagens que muitas vezes remetem ao silêncio. Suas pinturas tem como ponto de partida referências de naturezas distintas, como cenas de filmes, livros e frequentemente, pinturas clássicas.

Gabriel revisita imagens conhecidas da história da arte trazendo a sensação de adição de um certo drama a elas, como na obra Estudo de cabeça de urso, que baseia-se em um pequeno desenho de Leonardo da Vinci. Segundo o artista, a pintura em si requer consciencia de seu peso histórico, e umas das formas que encontrou de lidar com isso foi trazendo para sua linguagem própria a ideia de homenagem.

Em seus trabalhos recentes, passou a construir oproprio suporte usando chapas de metal, cantoneiras, parafusos e outros materiais que naturalmente transbordam seu papel estrutural e passam a ser mais uma caamada de significado,. Como na obra There is no time, em que o fundo laranja originario do proprio suporte metalico é usado como preenchimento de uma grua que aparenta estar desativada. .


Gabriel Botta: at the limits of visuality

2021


by Pollyana Quintella   
                                                                                   



    Let's think about the phenomena that impose themselves violently, but which are of the order of transitory images, difficult to apprehend. Perhaps you, reader, remember the shore zones -- the crashing waves, fireworks, great winds, fires, explosions, eruptions. They flood us with visual excitement, but quickly escape. In the blink of an eye, they are no longer the same, or no longer here.

I believe that this first exhibition by Gabriel Botta at Kogan Amaro Gallery tells us about these ephemeral gestures about to be remaken or deconstituted. His paintings are temporary captures, limits of visuality. In front of them, nothing remains, everything vanishes. Confim, the signifier that gives the show its title, means limit, border, but also the farthest, most unknown place. We, the spectators, contemplate these works like someone meditating on the bank of a flowing river and watching the water transform everything it touches.

We could recognize the attribute of impermanence as something shared by a generation that grew up immersed in the internet and digital world, whose images are always provisional and, ironically, imperative. But beyond this, I propose to recognize Botta's border painting from the conception of internal and external landscapes. Zoom in. Zoom out.

On
the external plane, such works can be seen as fragments of landscapes, rugged reliefs, deep oceans, patches of outer space. They are like an attempt to map an unknown territory that fascinates and frightens us. Internally, on the other hand, they configure cartographies of our affections, intensities, and emotions. It would not be possible to ignore the expressive character of these pictorial gestures: they are, above all, signs of a body that moves incessantly, a body that never stops printing itself on the canvas.

Giorgio Agamben says that, in the gesture, "each body, once freed from its voluntary relation to an end, can, for the first time, explore, probe, and show all the possibilities of which it is capable". In this direction, Botta's painting can be read as an exercise in possible lives, an exercise in infinite gesture. It tells us about the fragile appearance of things in the world, but also about her drive to take on surfaces.

The
works present in these confines, therefore, do not fit perfectly into the designs of the real, they are not a mirror of the world. On the contrary, they cloud our vision, whisper secrets, sketch enigmas. With them, the sensation persists that it is not possible to see, but only to glimpse, to peek, to glimpse. From this borderline experience, I am reminded of the poem by Ismar Tirelli Neto, which I share here: "I went to the confines / I take this corner to the confines / Now I am back / Now I speak for the confines / What did the confines tell you? / Now I am back". Here we see that inhabiting the edges is also a way of widening the borders. Perhaps in this way it is possible to embrace the strange, the unknown that inhabits us.











distinct natures

2016

(part of the exhibition at EDP 2016 - Instituto Tomie Ohtake)

by Rodrigo martins



A grinder used as a paintbrush. Gabriel Bottta's work results from the tension between materiality and the construction of a narrative, bringing to light the corporal clash that industrial materials require with images that often refer to silence. His paintings have as a starting point references of different natures, such as scenes from movies, books, and often, classical paintings.

Gabriel revisits familiar images from the history of art, bringing a sense of added drama to them, as in the work Bear's Head Study, which is based on a small drawing by Leonardo da Vinci. According to the artist, painting itself requires awareness of its historical weight, and one of the ways he found to deal with this was to bring to his own language the idea of homage.